O que todo advogado deve documentar durante um atendimento

Um atendimento jurídico pode produzir uma quantidade considerável de informações em poucos minutos. O cliente relata acontecimentos, apresenta documentos, menciona pessoas envolvidas, informa datas e explica o resultado que espera obter. Se esses elementos ficarem apenas na memória do profissional ou espalhados entre mensagens, anotações e arquivos, informações relevantes podem ser perdidas.

Documentar o atendimento jurídico ajuda a organizar o caso, preparar os próximos passos e preservar o histórico da relação profissional. Entretanto, registrar bem não significa guardar indiscriminadamente tudo o que o cliente disser.

O advogado também precisa considerar o sigilo profissional e a proteção dos dados pessoais tratados durante o atendimento. O Código de Ética da OAB estabelece o dever de guardar sigilo sobre fatos conhecidos no exercício profissional e presume confidenciais as comunicações entre advogado e cliente.

Por isso, documentação e segurança precisam fazer parte do mesmo processo.

Registre a identificação necessária do cliente

O primeiro conjunto de informações envolve identificar corretamente quem está sendo atendido.

Os dados necessários dependerão do tipo de serviço e da fase do atendimento. Nome, formas de contato e outras informações de identificação podem ser necessárias para cadastro, contratação ou execução do trabalho.

Porém, não é recomendável transformar a ficha inicial em uma coleta indiscriminada de informações.

A LGPD adota o princípio da necessidade, segundo o qual o tratamento deve ficar limitado aos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos em relação à finalidade.

Na prática, vale perguntar:

Por que preciso dessa informação para este atendimento?

Se não houver finalidade clara, pode não existir motivo para solicitá-la naquele momento.

Documente os fatos narrados pelo cliente

O relato inicial é uma das partes mais importantes do atendimento.

Procure registrar os acontecimentos de maneira organizada, distinguindo aquilo que foi relatado pelo cliente das conclusões jurídicas posteriormente elaboradas pelo profissional.

Uma estrutura cronológica costuma ajudar.

Registre o que aconteceu, quando ocorreu, quem estava envolvido e quais acontecimentos posteriores possuem relação com o problema.

Datas aproximadas devem ser identificadas como aproximadas. Quando o cliente não souber determinada informação, é melhor registrar a incerteza do que preencher a lacuna por suposição.

Esse cuidado reduz o risco de uma anotação interna ser posteriormente interpretada como um fato confirmado.

Construa uma linha do tempo do caso

Quando existem muitos acontecimentos, transformar o relato em uma cronologia pode facilitar bastante a análise.

Imagine uma questão contratual envolvendo negociação, assinatura, pagamentos, problemas na execução e diferentes tentativas de solução.

As informações podem ser registradas seguindo uma sequência:

data do contrato, início da execução, ocorrência do problema, primeira reclamação, resposta da outra parte e acontecimentos posteriores.

A linha do tempo ajuda o advogado a identificar informações faltantes e acontecimentos que precisam ser comprovados documentalmente.

Também facilita a retomada do caso semanas ou meses depois.

Registre os documentos apresentados

Não basta guardar os arquivos recebidos.

É importante saber de onde vieram e por que estão relacionados ao atendimento.

O Provimento nº 204/2021 do Conselho Federal da OAB, ao tratar da prestação de serviços advocatícios, reconhece dentro desse contexto as comunicações decorrentes da prestação, fatos conhecidos em razão dela e documentos, mídias e objetos fornecidos pelo cliente ou por terceiros.

Uma organização interna pode identificar, por exemplo, quais documentos foram apresentados, a data de recebimento e se são originais, cópias ou arquivos digitais.

Se determinado documento ainda não foi entregue, registre a pendência separadamente.

Assim, “documento recebido” e “documento solicitado” não acabam sendo confundidos.

Anote as pessoas relacionadas ao caso

Muitos problemas jurídicos envolvem outras pessoas além do cliente.

Dependendo do assunto, pode haver testemunhas, empresas, familiares, representantes, antigos empregadores, sócios ou outras partes.

Registre somente as informações relevantes para o caso e identifique claramente o papel atribuído a cada pessoa no relato.

Isso também pode ser importante para verificações internas relacionadas a potenciais conflitos de interesses antes da aceitação de determinados trabalhos.

Informações fornecidas pelo cliente sobre terceiros também merecem cuidado, pois a LGPD define dado pessoal de maneira ampla, abrangendo informações relacionadas a pessoas naturais identificadas ou identificáveis.

Documente o objetivo do cliente

Saber o que aconteceu não é suficiente.

Também é necessário entender o que o cliente procura.

Duas pessoas diante de situações semelhantes podem possuir objetivos diferentes. Uma pode buscar negociação, outra pode querer compreender seus direitos antes de tomar qualquer decisão.

Registrar a expectativa ajuda o advogado a avaliar posteriormente se existe correspondência entre aquilo que o cliente deseja e as possibilidades jurídicas identificadas.

Isso não significa prometer o resultado solicitado.

O registro deve justamente separar a expectativa manifestada pelo cliente da avaliação técnica realizada pelo profissional.

Registre as orientações fornecidas

Outro ponto importante é documentar as principais orientações transmitidas durante o atendimento.

Se o advogado explicou que determinada informação ainda precisa ser confirmada, isso pode constar no registro.

O mesmo vale para documentos solicitados, providências combinadas e questões que dependem de análise posterior.

Não é necessário produzir uma transcrição integral de cada conversa. O objetivo é preservar informações relevantes para a continuidade do trabalho.

Um registro objetivo pode indicar o assunto discutido, a orientação principal e o próximo passo definido.

Diferencie análise preliminar de posição definitiva

No primeiro atendimento, frequentemente ainda faltam documentos ou informações.

Por isso, é importante evitar que uma hipótese inicial fique registrada como uma conclusão definitiva.

A anotação pode indicar que determinada questão depende da análise de documentos específicos ou de pesquisa jurídica adicional.

Essa distinção também ajuda outros integrantes autorizados da equipe a compreenderem o estágio real do caso.

Quem consultar o histórico posteriormente conseguirá identificar o que já foi confirmado e o que continua pendente.

Registre prazos mencionados no atendimento

Datas potencialmente relevantes merecem atenção imediata.

Se o cliente mencionar recebimento de uma notificação, audiência, vencimento contratual ou outro acontecimento temporalmente relevante, registre a informação para análise.

Isso não significa aceitar automaticamente como correto o prazo calculado pelo próprio cliente.

A informação precisa ser verificada pelo profissional quando possuir consequência jurídica.

Depois da análise, os prazos efetivamente identificados devem entrar no sistema apropriado de controle do escritório, seguindo os procedimentos internos de conferência.

Uma anotação perdida em um caderno não deve ser o único mecanismo utilizado para controlar um prazo relevante.

Documente os próximos passos

Todo atendimento deveria terminar com uma compreensão razoavelmente clara do que acontece depois.

Pode ser necessário o cliente enviar documentos, o advogado realizar análise adicional, o escritório preparar uma proposta ou uma nova reunião ser marcada.

Registre essas pendências.

Quando houver equipe, também é útil identificar internamente quem ficará responsável por cada atividade.

Essa prática evita situações em que todos sabem que algo precisa acontecer, mas ninguém sabe quem deveria executar a tarefa.

Registre as condições da contratação separadamente

Quando o atendimento evoluir para contratação, aspectos comerciais e contratuais também precisam ser formalizados adequadamente.

Escopo do serviço, honorários, despesas, responsabilidades e outras condições pertinentes não deveriam depender apenas da memória de uma conversa.

O contrato e os documentos relacionados à contratação devem ser organizados juntamente com o restante do histórico profissional, respeitando as regras aplicáveis à advocacia.

O registro adequado também ajuda a distinguir aquilo que está efetivamente incluído na contratação de solicitações posteriores que possam representar novos serviços.

Não grave atendimentos indiscriminadamente

A facilidade de gravar chamadas, videoconferências e reuniões não significa que todo atendimento precise ser registrado integralmente em áudio ou vídeo.

Uma gravação pode reunir grande quantidade de dados pessoais e informações confidenciais.

Quanto maior a quantidade de informação armazenada, maior também é a responsabilidade de protegê-la.

A LGPD estabelece princípios como finalidade, necessidade, segurança e prevenção. O princípio da segurança exige medidas técnicas e administrativas destinadas a proteger dados pessoais contra acessos não autorizados e outras situações acidentais ou ilícitas.

Antes de adotar gravações como rotina, o escritório deve avaliar a finalidade, necessidade, base jurídica aplicável, forma de armazenamento, acesso, retenção e demais obrigações pertinentes.

Proteja as anotações do atendimento

Uma ficha jurídica pode conter muito mais do que nome e telefone.

Dependendo do caso, pode reunir informações financeiras, familiares, profissionais e outras informações de natureza privada.

Além disso, existe o dever de sigilo profissional. O Código de Ética determina que o advogado guarde sigilo sobre fatos conhecidos em razão da profissão e estabelece que as comunicações entre advogado e cliente são presumidamente confidenciais.

Por isso, anotações jurídicas não devem permanecer desnecessariamente expostas em mesas, aplicativos pessoais, dispositivos desprotegidos ou contas compartilhadas sem controle adequado.

O acesso interno também deve considerar quem realmente necessita da informação para desempenhar suas funções.

Crie um padrão de registro para o escritório

A documentação melhora quando existe uma estrutura utilizada consistentemente.

Uma ficha de atendimento pode contemplar identificação necessária, resumo do problema, cronologia, pessoas envolvidas, documentos apresentados, documentos pendentes, objetivo informado pelo cliente, orientações prestadas, pontos que exigem análise e próximos passos.

Isso não significa transformar toda conversa em um formulário rígido.

Casos diferentes exigem informações diferentes.

O padrão serve como uma referência para reduzir esquecimentos, enquanto o advogado continua decidindo quais dados são pertinentes para aquele atendimento específico.

Revise o registro antes de encerrar

Poucos minutos de revisão podem evitar dúvidas posteriormente.

Verifique se datas importantes foram anotadas, se documentos pendentes estão identificados e se os próximos passos ficaram claros.

Também confirme se uma hipótese foi indevidamente escrita como certeza.

Se houver uma equipe trabalhando no caso, o registro deve ser suficientemente compreensível para que outro profissional autorizado consiga entender o estágio do atendimento sem precisar reconstruir toda a conversa.

Uma boa documentação jurídica não é aquela que registra a maior quantidade possível de informações. É aquela que preserva, com segurança e organização, aquilo que será necessário para compreender o caso, orientar o trabalho e manter a continuidade do atendimento. Registrar fatos, documentos, objetivos, orientações e pendências de forma estruturada reduz dependência da memória e melhora a gestão do escritório, desde que a coleta e o armazenamento respeitem o sigilo profissional e as regras de proteção de dados.

Fontes consultadas