Como criar uma comunicação jurídica mais clara e objetiva
A comunicação jurídica precisa ser tecnicamente correta, mas isso não significa que deva ser difícil de entender. Contratos, pareceres, notificações, petições, orientações e mensagens enviadas a clientes cumprem melhor sua função quando apresentam as informações essenciais de maneira organizada e compreensível.
O desafio está em simplificar a linguagem sem eliminar conceitos jurídicos necessários ou alterar o sentido de uma obrigação, direito ou argumento. Clareza jurídica, portanto, não significa abandonar a precisão técnica. Significa retirar do texto aquilo que dificulta a compreensão sem acrescentar precisão.
Essa preocupação também está presente no próprio Poder Judiciário. O Conselho Nacional de Justiça instituiu o Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples, iniciativa voltada à adoção de uma comunicação mais direta, acessível e compreensível.
Comece identificando quem vai ler
Antes de escolher palavras ou estruturar parágrafos, é necessário saber quem receberá a informação.
Um texto destinado a magistrados e profissionais do Direito pode exigir terminologia que seria inadequada em uma mensagem dirigida a um cliente sem formação jurídica. Da mesma forma, uma cláusula contratual possui necessidades diferentes de um conteúdo informativo publicado no site de um escritório.
Isso não significa reduzir o rigor dependendo do leitor. O que muda é a forma de apresentar a informação.
Quando o destinatário não domina o vocabulário jurídico, termos técnicos indispensáveis podem ser acompanhados de explicações em linguagem cotidiana. Já expressões rebuscadas que não acrescentam precisão geralmente podem ser substituídas.
Coloque a informação principal no lugar certo
Um problema frequente em textos jurídicos é obrigar o leitor a atravessar vários parágrafos antes de descobrir o que realmente precisa saber.
Em uma comunicação com um cliente, por exemplo, normalmente é mais eficiente apresentar primeiro a informação principal e depois explicar fundamentos, consequências e próximos passos.
Uma estrutura simples pode seguir esta lógica:
- o que aconteceu;
- por que isso é relevante;
- o que isso significa para o destinatário;
- o que precisa ser feito;
- qual é o prazo, quando houver;
- quais cuidados ou documentos são necessários.
Essa organização reduz a possibilidade de uma orientação importante ficar escondida no meio de explicações secundárias.
Prefira frases que expressem uma ideia de cada vez
Períodos excessivamente longos aumentam a carga de leitura. Quando uma frase reúne fatos, fundamentos, exceções e consequências ao mesmo tempo, o leitor precisa descobrir sozinho como essas informações estão relacionadas.
Dividir o raciocínio em períodos menores costuma produzir um texto mais claro.
Isso não significa escrever de forma telegráfica. O objetivo é construir uma sequência lógica na qual cada frase prepare a próxima.
Parágrafos também merecem atenção. Sempre que um bloco começa a discutir outro assunto, consequência ou etapa do raciocínio, pode ser adequado iniciar um novo parágrafo.
Reduza o juridiquês que não acrescenta precisão
O vocabulário técnico existe por uma razão. Determinadas expressões possuem significado jurídico específico e não devem ser substituídas apenas para deixar o texto aparentemente mais simples.
O problema está no rebuscamento desnecessário.
Expressões pouco utilizadas fora do ambiente jurídico, construções excessivamente formais e palavras antigas podem dificultar uma informação que seria perfeitamente transmitida por termos comuns.
A linguagem simples não exige eliminar conceitos como tutela provisória, coisa julgada, responsabilidade solidária ou prescrição quando eles forem relevantes. Em uma comunicação destinada ao público geral, porém, pode ser necessário explicar o significado e principalmente a consequência prática daquele conceito.
Técnica e clareza podem coexistir
Considere uma orientação informando que determinado prazo começou a correr. Para um profissional da área, a terminologia processual talvez seja suficiente. Para um cliente, a principal preocupação provavelmente será outra: até quando alguma providência precisa ser tomada e o que acontecerá em seguida.
Uma boa comunicação pode preservar a explicação jurídica e acrescentar sua tradução prática.
Essa diferença é fundamental. Simplificar não é omitir.
Use títulos que antecipem o conteúdo
Em documentos extensos, bons títulos funcionam como pontos de referência.
Subtítulos genéricos podem ser substituídos, quando apropriado, por formulações que revelem exatamente o assunto daquela parte. Isso permite que o leitor localize rapidamente uma informação específica sem reler todo o documento.
Em um material destinado ao cliente, títulos como “Documentos que você precisa enviar”, “Prazo para resposta” e “O que acontece na próxima etapa” tendem a ser mais informativos do que divisões abstratas.
Em peças processuais e documentos sujeitos a requisitos específicos, naturalmente é necessário respeitar a estrutura adequada ao ato praticado.
Destaque prazos e ações sem criar poluição visual
Clareza não depende somente das palavras. A apresentação também interfere na leitura.
Parágrafos muito extensos, excesso de negrito, uso indiscriminado de letras maiúsculas e grandes blocos sem divisão dificultam a identificação das informações essenciais.
Listas podem ser úteis para documentos necessários, requisitos, etapas e providências. Já informações particularmente importantes podem receber destaque moderado.
O princípio é simples: se tudo estiver destacado, nada estará realmente destacado.
Evite pressupor que o cliente conhece o processo
Para quem trabalha diariamente com processos, contratos e procedimentos administrativos, certas etapas parecem evidentes. Para o cliente, muitas vezes não são.
Dizer apenas que “houve intimação”, por exemplo, pode deixar várias perguntas sem resposta. O cliente pode querer saber se precisa fazer alguma coisa, se existe prazo, se precisa comparecer a algum lugar ou se o escritório cuidará da providência.
Uma comunicação jurídica clara procura antecipar essas dúvidas razoáveis.
Isso também reduz contatos posteriores destinados apenas a esclarecer uma mensagem anterior.
Revise o texto procurando ambiguidades
A revisão jurídica tradicional costuma verificar fundamentos, dados, referências, coerência argumentativa e erros formais. Uma revisão voltada à clareza precisa acrescentar outra pergunta: o destinatário entenderá o que o texto pretende comunicar?
Durante essa leitura, vale observar se:
- os pronomes deixam claro a quem se referem;
- os prazos estão apresentados de maneira inequívoca;
- existe contradição entre diferentes trechos;
- uma frase admite interpretações desnecessariamente diferentes;
- termos técnicos indispensáveis foram contextualizados;
- informações essenciais estão excessivamente distantes umas das outras;
- há repetições que podem ser removidas.
A revisão deve preservar o conteúdo jurídico. Uma frase aparentemente mais simples não é uma melhoria se modificar o alcance de uma obrigação ou produzir ambiguidade.
Diferencie comunicação com clientes de documentos jurídicos formais
Nem todo texto produzido por um escritório deve seguir exatamente o mesmo padrão.
Uma mensagem de acompanhamento enviada ao cliente pode utilizar linguagem muito mais próxima da comunicação cotidiana. Um contrato exige precisão na definição de direitos e obrigações. Uma petição precisa atender às necessidades jurídicas e processuais do caso.
Por isso, “escrever simples” não pode ser transformado em uma fórmula aplicada indistintamente.
A melhor abordagem é buscar o nível máximo de clareza compatível com a finalidade e os requisitos do documento.
Crie padrões internos para comunicações recorrentes
Escritórios e departamentos jurídicos costumam enviar diversas mensagens semelhantes: solicitação de documentos, confirmação de reunião, atualização processual, orientação sobre prazos e explicação das próximas etapas.
Criar modelos internos pode aumentar a consistência, desde que eles sejam adaptados a cada situação.
Um bom modelo define estrutura e informações que não podem ser esquecidas. Ele não deve incentivar respostas automáticas que ignorem as particularidades do caso.
Também é útil estabelecer um padrão editorial. A equipe pode definir, por exemplo, como explicar termos técnicos, como apresentar datas e como organizar orientações que exigem uma ação do cliente.
Teste a comunicação pela perspectiva do destinatário
Depois de finalizar um texto, uma revisão simples pode revelar muitos problemas: imagine que o leitor não participou das conversas anteriores e conhece apenas o conteúdo que está diante dele.
Ele consegue identificar o assunto? Entende o que aconteceu? Sabe se precisa tomar alguma providência? Consegue localizar um prazo? Entende qual será a próxima etapa?
Se uma dessas respostas for negativa, provavelmente falta informação ou organização.
Comunicação jurídica clara não é aquela que demonstra quantos termos técnicos o autor conhece. É aquela que transmite uma informação juridicamente adequada com o mínimo possível de obstáculos para quem precisa compreendê-la.
Ao combinar precisão, estrutura, contextualização e linguagem compatível com o público, profissionais e organizações podem tornar a comunicação mais eficiente sem abrir mão do rigor exigido pelo Direito.
